
poupa-me o desgosto
de ver como me expuz
à presença do ausente
recuso a patente
das rugas e do rosto
fecha essa janela
que toda a primavera foi tolhida
de certa dor mordida
por mares da solidão
luz - não quero tê-la
dá-me escuridão
corre esse cortinado
deixa-me existir assim
mudo e apagado
na obscuridade
- não te chegues a mim!
... sujas-te toda de infelicidade
vence essa incerteza
e ordena à vida
que absorva os plurais
da nossa frieza
depois de seres vencida
não quero morrer mais
Lisboa, Fevereiro 1963
Paizinho,
ResponderEliminarNunca estiveste totalmente isolado, nós estivemos sempre contigo e tu sabes que é verdade. Foram 32 anos que vivemos juntos,a minha vida inteira de eterna sabedoria, eloquência e génio. Deste-me algo que poucos pais sabem dar aos filhos. Mas para mim, foste pai, o único que conheci, o único que desejei, a mais perfeita mente, com demostrações de uma ternura inigualável.
Sou também eu uma solitária, assumo que tenho esta tua veia. Mas a solidão foi sempre exterior, porque aqui em casa estivemos sempre contigo e era a nós que tu te revelavas. Mesmo no momento da tua morte, estavas com a tua "Rosinha", como chamavas carinhosamente a mãe. Deixo aqui um beijo da parte dela. Um beijo com saudade de 37 anos de casamento, e outro que fica guardado para o encontro no descanso eterno.
Por tudo o que transmitiste, a nós filhas, toda a cultura, a extensa biblioteca que nos deixas, pelo gosto do belo, das artes, da escrita, "Du Vintage Cinéma", pelo legado infindável de música erudita, pelo amor aos animais e à natureza...ai Pai, há tanto para agradecer-te.
Há lembranças de infância tão ternas, que até hoje continuo a afagá-las. E mais que nunca recordo, o conselho de um dia que me viste chorar, sabias que eu estava triste, sabias a razão, e disseste simplesmente, "Paulinha, olha o céu!"
Obrigado Pai por teres-me feito feliz.
Amo-te Pai!
Da tua "menina ilimitada, bela e querida, Paula Mariana ou fada (...)"