
Ele aí está!
... entusiasmo
alegria histérica
sofreguidão de ser o primeiro a...
delírio colectivo
As senhoras sobem um degrau
apoiando-se nas cadeiras
que não se entusiasmam com a superstição
e pedem três coisas misteriosas
como só as mulheres conseguem
- pedir a quem?
Dentro dos fatos recentes
gravata nova
comprada ao vendedor ambulante
alfinete de ouro
herdado dos ícones familiares
os donos do clã erguem a taça para "as saúdes"
e formulam secretos votos
de uma brilhante temporada do seu clube
brindam pela tão merecida promoção
bebem pela manutenção do "status quo"
declaram longa vida para o omnipotente protector
- mal suspeita o Judas -
abafam estas anímicas fraquezas compreensíveis
em "hip urras" arrebatadores
enquanto imaginam
momentâneas e explêndidas
as ancas daquela pequena da tabacaria
que ainda não perdeu o respeito por si própria
Nos "réveillons" de sociedade
sucedem bailes e espectáculos
a euforia luminosa entorna-se pelos convivas
brilhos da líbido projectam promessas
e geram sinistras esperanças
nos apetites erectos dos homens
absortos na contemplação desses animais
frívolos
e caríssimos
Até que o dia desponta
e recomeça o ciclo vicioso
de mais um ano inalterável
II
Eu
entrei no novo ano
como quem abre uma porta
e passa, indiferente, para o mesmo sítio
porque pressinto que tudo se irá manter
na pátria casa
a mancha na parede do passado
o pé partido
do móvel onde se guarda a liberdade
podre o soalho que pisamos
Beijei meus filhos
aborreci-me muito nessa noite
só por me lembrar de tanta gente
tão inconsciente
que até se mascarava de alegria
Deitado
perguntei ao que acabava de chegar
quantas voltas daria o mundo
nos doze meses da sua ditadura
quantos milhões de entes vestiriam ou despiriam
o manto indecoroso da fome
quantas crianças se transmudariam
do vexame da esmola
para a carícia admirável da escola
Talvez muitos mais sejam felizes
de hoje a um ano
embora a parede
aqui
manchada permaneça
quebrado o pé do móvel
podre o chão do espírito
Lisboa, Janeiro 1963
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